DESIGN METHODS: TEORIA OU REALIDADE?

Quando pensamos em “método”, pensamos normalmente e erradamente, num conjunto de ferramentas (procedimentos e técnicas) que, usadas de forma rigorosa e sistemática, nos levam ao resultado esperado, sendo que na realidade, o “método”, justamente pela sua divergência de uma fórmula matemática, não promete resultados, e sim a orientação na busca de uma conclusão ou resposta. Como diz a sua definição etimológica, “método” é – caminho para um fim.

O uso dos métodos de qualquer natureza nos permite compreender aquilo que ainda não é compreendido dentro de uma ordem lógica. Era esta ordem lógica “declarada” que não acompanhava os vários ofícios criativos. Somente após muitos anos, dada a sua abordagem projetual e a conseqüente e necessária integração com várias áreas envolvidas na definição das estratégias de negócio e toda a cadeia produtiva, a criatividade, intuitiva, emocional, foi incorporada ao modelo de pensamento, representando uma das principais características do designer, a integração do intuitivo ao analítico e sistemático.

Recuperando o principio do “método” como ferramenta, podemos entrar então no “método criativo” ou “método de design”, que pela sua distância da abordagem científica, foge ainda mais de qualquer idéia matemática, devido a seu alto input criativo, tanto na idealização dos procedimentos (método), como na forma pressuposta para a sua execução (o método em andamento), e sobretudo pela sua condição flexível e sua capacidade de adaptação aos diferentes argumentos e problemas…”sim, os métodos de design não são só para designers, nem só vinculado ao ato de criar produtos com um apelo atraente e diferenciado”; os métodos de design podem envolver pessoas de diferentes disciplinas, assim como ser muito úteis na busca de soluções para qualquer tipo de problema, já que trata-se, na sua essência, de processos que contribuem na construção de novos raciocínios. 00


 

Imagem 00: Embraer – dinâmica Insights periféricos. VRD RESEARCH 2008. A busca de novas referencias tecnológicas pode ser um ato “incestuoso” se o nosso olhar se limita ao segmento ou ao tipo de produto em questão. Ao final, nestes dias todos tem acesso as mesmas tecnologias, encontrar uma nova referencia exige olhar fora dos perímetros.

De uma forma geral, quando enfrentamos um problema, nosso cérebro tende a utilizar o pensamento linear, que reage de forma automática, fazendo conexões com padrões e situações já vivenciadas. Esta resposta reativa nos impede de enxergar caminhos alternativos e nos conduz à repetição das mesmas idéias, ou simplesmente à falta de idéias. Para sair do “loop” e ampliar as possibilidades é necessário desviar e re-direcionar o caminho natural do cérebro, por meio de um pensamento fragmentado e criativo. 01


Imagem 01: Pensamento linear vs. pensamento fragmentado e criativo. VRD RESEARCH.  A exploração criativa num pensamento linear, é limitada e tende á repetição, contrario a isto, no pensamento fragmentado, aonde a criatividade pode ser explorada por níveis, o leque de possíveis alternativas e soluções é infinito.

Isto é, dispor a criatividade em função da construção de novos raciocínios, começando pela maneira como se enxerga o problema, como se exploram as variáveis e na maneira como todas essas informações são interligadas, mesmo em contextos de grande complexidade. Porque uma idéia inovadora é o resultado da soma de várias pequenas inovações ao longo de um processo, da maneira inovadora de entender e explorar o problema, assim como da maneira inovadora de definir as diretrizes de criação.

Os processos de design, a maneira criativa de pensar e os métodos envolvidos na busca de soluções e idéias “out of the box”, vêm sendo um assunto de discussão e de altíssima relevância, tanto nas diversas instituições acadêmicas de Design, Marketing, Comunicação, Negócios, etc; nas empresas de Design, como em empresas de diferentes perfis de negócio.  Em alguns casos com ótima aceitação e experiências positivas na implementação, mas em outros (a grande maioria), trata-se de uma teoria bonita, ou de alguns exercícios com impacto positivo no RH, mas que realmente não têm trazido nenhum retorno efetivo.

Na hora de usar os métodos de Design como ferramenta de pensamento e de criação, existem algumas barreiras, assim como situações que acabam comprometendo os benefícios que a implementação efetiva pode trazer.

(1) Existem duas situações comuns entre os estudantes que tem a oportunidade de praticar alguns métodos na sala de aula. Por um lado, fazendo referência em particular ao estudante de Design, existe aquele que acha interessante o uso de um processo metodológico, mesmo sem entender muito bem o porquê, mas seu interesse dura até sentir-se que está tornado-se mais um designer de processo que designer do que ele imagina ser.  A ansiedade pela chegada da forma e do tangível, faz com que o processo seja uma carga chata, eterna e desorientadora. Do outro lado está o estudante que entendeu o valor do processo, mas pensa que isto só é possível se o “empregador” comprar a idéia, ou quando tratar-se de um projeto muito grande, com tempos estendidos de realização.

É claro que não existe nada mais difícil para um novo Designer (também acontece com os maduros), conter a vontade de colocar no papel uma idéia, sendo que não existe nada mais gratificante do que dar forma e voz à um “algo” apenas imaginado.  Porém, o que acontece quando essa forma não tem alma, essência, argumento? Qual será a sua relevância? … As boas idéias devem ser boas primeiramente nos seus conceitos, no argumento que defendem e no valor que carregam, essa pequena história que faz com que tanto adquirir um novo produto (consumidor), como fazer um novo investimento (empresa) seja algo que vale a pena. Em um contexto com tantas possibilidades de aquisição e de investimento, esta promessa inicial é a essência da criação de valor. É isso que o método de design procura, juntas aos poucos cada elemento que deve compor o “código genético” de uma solução inovadora.

Os métodos de design, são adaptáveis e flexíveis, tanto em relação ao assunto como em questões de tempo. Não existe projeto nem assunto aonde não seja possível usar esta ferramenta; pode ser desde uma rótulo, uma embalagem, um novo serviço, até um avião. É a prática (muita prática) que faz com que métodos de altíssima complexidade possam ser encaixados em projetos com tempos reduzidos, e que os mesmos, inclusive com seu caráter “alternativo”, possam trazer retorno em estudos de maior exigência, como por exemplo um estudo de comprovação científica. 02


Imagem 02: Johnson & Johnson “assaduras, uma motivo  do estresse para o bebê: identificar, analisar e relacionar a assadura aos fatores de sofrimento do bebê”. VRD RESEARCH 2009. O objetivo deste estudo buscava combinar ferramentas científicas e procedimentos com métodos alternativos de observação, a partir da perspectiva do Design Thinking, para explorar outras manifestações espontâneas do bebê (gestos, interação, respostas, etc.) e assim, ser capaz de validá-os por meio de evidências médicas.

(2) Existem dois grandes desafios para as empresas de Design que oferecem como diferencial a metodologia de projeto. Primeiramente, estas devem não só conseguir uma exploração diferenciada do problema, do público, das necessidades e oportunidades, mas também conseguir transformar os resultados de questionários, murais de fotos, e centenas de post-its em algo de valor, em uma nova visão de negócio, em soluções e idéias que fazem diferença.  O segundo grande desafio é nunca fazer do método de design um “clichê”, a “figurinha” que funcionou e que é usada da mesma maneira em todos os projetos.

Usar o método para “bagunçar” a forma de pensamento linear, explorar além dos paradigmas e conectar aspectos nunca antes vinculados, e depois não saber o que fazer com isto, é uma situação clássica, e de fato não tem método que vale, se não conseguimos enxergar novas oportunidades, sintetizar em novos valores e transformar em soluções. O que fazer? Se obrigar a extrair o melhor de tudo, menos do óbvio, e sobretudo, praticar… a capacidade de enxergar e transformar é algo que se conquista com o tempo. 03


Imagem 03: Papaiz “Nova geração de cadeados”. VRD RESEARCH 2010 – 11.  Traduzir a observação em novas oportunidades de negócio, implementáveis a curto, meio e longo prazo.

O método de design não pode, de nenhuma maneira, deixar de lado o aspecto criativo que o diferencia, tornar-se um “clichê” seria perder toda a sua essência. Deve sempre levar o “saborzinho” experimental, ser “alternativo” à métodos convencionais, reinventar-se constantemente. 04


Imagem 04: R&D Johnson & Johnson “Intimate care”. VRD RESEARCH 2009. Tratar assuntos “íntimos” em um formato de focus group tradicional pode ser limitador. Propor um novo formato “auto conduzido” entre um grupo de amigas significou uma quebra de paradigmas que valeu muito a pena, pois até os desvios de assunto e os fatores não controláveis trouxeram informações muito ricas para o projeto.

(3) Existem dois grandes medos que as empresas enfrentam na hora de incluir uma nova metodologia nos seus processos de desenvolvimento e projeção do negócio.  O primeiro, que trata do “caráter” do método, se resume em uma seqüência de perguntas. É criativo demais? Aleatório? Como vamos sustentar essas novas diretrizes de negócio? E o segundo, que se refere ao resultado e à viabilização, trata-se do receio de ficar nas “nuvens”, de nunca conseguir levar essa idéia inovadora e maravilhosa à realidade da empresa, e na hora de afinar e adaptar as restrições, acabar perdendo o diferencial.

Que um processo seja criativo, e use métodos alternativos com ênfase qualitativo, não significa que este seja aleatório, superficial ou insustentável. Também não pressupõe que pela sua natureza criativa, seja abstrato e incompreensível para as pessoas de outras disciplinas.  Pelo contrário, ele é sistemático – cada critério e parâmetro tem um porquê, e busca sempre parametrizar, mapear e quantificar informações e observações qualitativas.

Os resultados do processo de design, devem sempre concluir em um “cenário”, onde seja possível conectar o presente e o futuro, a idéia que poderá ser feita em 10 anos com aquela realizável amanhã e ser capaz de planejar uma implementação faseada, de acordo com as competências e os objetivos a médio-longo prazo.

As oportunidades para a aplicação de métodos de design são inúmeras dada as crescentes complexidades que o contexto atual nos impõe. No entanto, seus resultados só serão efetivos quando proporcionarmos as condições ideais, ou seja, estar dispostos a adotar uma nova atitude e abertos à novas maneiras de “fazer”. Ser inovador é uma opção, mas optar por inovação significa adotar uma atitude inovadora.